quinta-feira, janeiro 08, 2009

AMO-TE, LISBOA! (IV)


Mesmo num dia gélido há, em Lisboa, a cor-luz-quente das especiarias, derramada nos telhados, nas curvas das colinas sedutoras onde o sol implora para ficar mais um pouco. Cores-eco da alegria que há em todos os regressos. Como o dos que numa nau conjugavam, há muito tempo atrás, o verbo voltar-à-pátria. E há também, em Lisboa, sombras-hibernações-de-esperas. E sal. Há sal retirado do rio, tão doce, e colocado nos lábios das mulheres que sempre ficavam. Sempre. Sempre é som sagrado, juramento. Sempre é muito tempo. Talvez, por isso, as mulheres de Lisboa têm aves inquietas nos olhos. Talvez. E migram nos sonhos, mas nunca nos afectos, onde voltam sempre. Aquele sempre que é sagrado e juramento. Aquele sempre que é muito tempo. É. Eu sei.

Ni*

~*~
(Para ver as fotografias no tamanho original bastar clicar sobre elas)



















*

(Hoje, mais um amigo partiu. Estava em sofrimento. Palavra que não rima com nenhuma outra. Sofrimento nunca é poesia. Assim se vai esvaziando a minha vida. Sinto-me peça dum puzzle onde já faltam tantas outras-peças-de-afecto... que o desenho de quem sou se vai apagando. E se somos eternos enquanto perduramos na memória de quem nos quer bem... também só existimos enquanto houver alguém com quem rir... alguém que nos leia os brilhos e as cinzas... alguém que saiba cantar o nosso nome.)

12 comentários:

Maria disse...

Em situações destas não tenho palavras, Ni.
Abraço-te forte,
... e saio devagarinho...

Ni disse...

MARIA:

Obrigada. Não saias... fica e toma um chá de Lúcia-Lima comigo. Ao som da canção...

Abraço, forte, sentido... com sabor a sal.

Ni*

Alberto Campos disse...

Eis que regressa a magia do olhar e das palavras. Eis que no ciclo o sol renasce.
Sempre será sempre muito tempo dependendo para onde olhemos. Poderia dizer que há cousas que sempre nos acompanham e não partem. tudo faz parte do ciclo, lembra-te.
Olho-te somente e amparo o sal dos teus olhos vertido em palavras, em luz e cor...Sempre.
Um abraço forte nesta hora...salgada.

Ni disse...

ALBERTO CAMPOS:

Sei um pouco sobre a importância do ciclo e o renascimento a ele associado...
Mas quando se cumpre o ciclo... tanto podemos ter por companhia a alegria como a tristeza.
Escrevi sobre o ciclo no meu blog 'E se um anjo te dissesse...?':

O círculo fecha-se sobre si mesmo. Uma e outra vez passamos por estações da alma. Uma e outra vez renascemos de nós mesmos. Uma e outra vez repetimos ciclos.

Renascer das próprias cinzas, aprender a viver os diferentes ciclos da vida. Nada há que seja eterno. Tudo muda e se modifica na sua evolução aperfeiçoada. Não poderás agarrar-te a nada eternamente. Nada é 'para sempre', a começar por nós mesmos.

Muitas pessoas agarram-se ao conhecido fugindo das mudanças, horrorizadas perante uma possível perda, seja de um emprego, de uma quantia em dinheiro, de tempo, de uma relação, de um objecto no qual se projectaram sonhos.

Outras fogem dos ciclos, não se permitem ter um Inverno existencial nem sequer um tímido Outono, pretendendo que a sua vida inteira seja um folguedo interminável de exultante Primavera.

Mas não se pode emergir fortalecido, se antes não se tiver ido ao fundo, bem lá ao fundo, e não se tiver hibernado na razão dos sentimentos.
Introspecção para poder encontrar respostas.
Correr, como água, pelo leito do rio da vida. Saborear todos e cada um dos momentos vitais.

Mas renascer é lindo, é aprazível e traz consigo sal novo com que condimentar a vida.

Nunca nos deveríamos envergonhar dos nossos 'fracassos' nem das nossas perdas, pois eles dão lugar ao 'novo' nas nossas vidas. Preparam o caminho ao que há-de vir, que regra geral é muito mais apropriado para o nosso presente.

Quando alguma coisa ou alguém se vai embora da tua vida, despede-te agradecendo-lhe tudo o que te trouxe e depois deixa que parta.

Em vez de ficares com pena pelo que vai, dedica-te a preparar-te para o que vem...

Não importa daqui a quanto tempo vai chegar. Já está a caminho da tua vida!


Abraço de vento...
Ni*

Anónimo disse...

Ni*
Muito, muito e muito obrigado por este momento de conforto que mais uma vez tive ao ler este post.
Também eu amo muito Lisboa, principalmente nas horas em que somos menos os que andamos pelas ruas.
Assim partilhada a dor e de forma tão terna poderá doer menos um bocadinho.
Fica toda a minha ternura, embora transmitida virtualmente. Um beijo
joão Miguel

Ni disse...

Enquanto alguém vive no nosso coração, nunca partirá... Estará quente e protegido no melhor local para viver eternamente!

E acredito que ele esteja a sorrir na esperança de continuares a rir com ele fazendo eco no teu peito!

Esta música arrepia-me!

Um beijinho bastante doce***

Quase nos 50 disse...

Também eu perdi uma amiga.
Num estúpido acidente.
Sei bem o que é perder um ser que amamos.
Só podemos pedir que descanse em Paz.
Um abraço

OUTONO disse...

Pelos encantos da minha cidade...um beijo.

Pelos momentos de partilha da tua criatividade...um prémio Dardos.

Por último, deixa-me dizer solidário com a tua dor...

Ni disse...

JOÃO, NI, QUASE NOS 50, OUTONO...

Durante uns tempos (recentemente) tive dúvidas sobre se deveria manter este blog... onde coloco apenas momentos meus, sentidos pela verdade de quem sou, escritos pelas palavras que escorrem do coração para os dedos e, ultimamente, com imagens captados pela janela dos meus olhos...

Se ainda tivesse dúvidas hoje estariam dissipadas... porque é bom, muito bom, ainda que virtualmente, sentir-vos perto... no elo que se estabelece entre quem se 'compreende'...

Obrigada.
Hoje muito frágil e sensibilizada.
Obrigada!

Ni*

☆Fanny☆ disse...

Olá Ni*.
Lindas fotos. Confesso que estava numa ansiedade para as ver. A Bia também. Nossa Lisboa é mesmo linda! Tem encantos mil e quem sabe senti-la, enternece-se numa magia profunda!

Lamento a perda! A alma dói e a ausência, que nunca será no coração, afunda-nos num vazio sem fim.

Força amiga! A vida é mesmo assim! Embora custe aceitar!

Os blogues são uma ponte que nos transportam para outros mundos semelhantes aos nossos! São um escape a toda esta loucura do dia-a-dia. São o alento, o refrigério que nos acalma e nos vai desenhando sorrisos interiores... iluminados!
Eu não prescindo deste espaço, porque ele tem-me permitido conhecer pessoas fantásticas.

Um grande beijinho com muitas estrelinhas só para ti*

Fanny

Anónimo disse...

Ni*
Agora que eu cheguei e que tanto me delicia o conteudo e a doce forma da escrita, momentUS ia acabar?
No que dependesse de mim não acabaria nunca.
Promento que estarei aquí sempre que poder, muitas vezes minha doce e querida Ni*
Um beijo com muita ternura
João Miguel

Cleopatra disse...

Sofrimento rima com....enamoramento Ni.

Hoje estou nostálgica.MUITO nostalgica....