segunda-feira, dezembro 01, 2008

ÍNFIMOS INFINITOS


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Partilho excertos de livros de que gostei. Talvez alguém que por aqui passe leve consigo a vontade de os ler, ou oferecer. Oferecer um livro a alguém é como escrever uma carta a essa pessoa. Ou muitas. Diariamente. Em cada segundo, que deixa de ser tempo e passa a ser afago. Para sempre. É. Para sempre.

Hoje, inaugurei no meu sorriso o meu mês 'de extremos'. Mês em que escolhi nascer. Mês em que o frio da ausência de alguns afectos tenta descobrir o caminho para a alma. (Ou para sair dela?). Mês em que os abraços são mais embalados, embrulhados em papel de seda. Suave, porém tão... frágil.


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"Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem."

José Saramago, in "Ensaio sobre a Cegueira"

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Se o reflexo das tuas palavras te cobrisse o corpo como me cega
ambos saberíamos que só no
silêncio poderíamos ser felizes.
Ou duvidas que esse som alberga todos os desejos de dentro?
Se as cores do teu olhar se voltassem de novo para trás, ambos iríamos finalmente conhecer o sabor do desencontro.
Ou duvidas que essa memória nos carrega as noites?
Se cada sentido disto tudo se transformasse, não valeria a pena a volta
Ficaríamos na dúvida.

Pedro Branco, in "Escolhas"
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"Porque nada é mais íntimo e indestrutível do que o silêncio partilhado. Tudo o resto são apenas palavras, sons, frases, coisas que qualquer um pode dizer. Podemos desdizer hoje o que dissemos ontem, podemos gritar hoje, por ódio, o que ontem segredávamos por amor. Mas o silêncio fica porque nunca mente, porque é tão íntimo que não pode ser representado, é tão envolvente que não pode ser rasgado."

(...)

"...nunca devemos amar em silêncio, nada é mais perigoso do que dividir com outrém os pensamentos vividos em silêncio. Um amor feliz precisa de turbilhão das palavras, das frases aparentemente inúteis e sem sentido, precisa de adjectivos, de elogios, do ruído das banalidades. Não há felicidade que seja tantas vezes fútil, tantas vezes inútil."


Miguel Sousa Tavares, in "Não te deixarei morrer, David Crockett"
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"De vez em quando naufragava uma frota carregada de prata no oceano. A humanidade tentou desde sempre recuperar os tesouros afundados. No meu coração já se afundaram tantas frotas e toda a vida hei-de tentar trazer à superfície uma parte dos muitos tesouros que jazem lá no fundo. Ainda não tenho as ferramentas necessárias para isso. Vou ter de as fabricar a partir do zero."
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Etty Hillesum, in "Diário 1941 - 1943"
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“Pudéssemos viajar, não para lugares longínquos de paisagens tremendas, não ao encontro de outros povos, culturas e cheiros, outras gentes e sabores, mas ao interior uns dos outros.”
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Rodrigo Guedes de Carvalho, in "A Casa Quieta"

4 comentários:

Ni disse...

Um livro... Sempre que penso num presente, penso num livro. Mas não um qualquer, tem de ser algo que contenha o coração de quem eu vou oferecer...
É uma carta, como dizes! E como tal, terá de parecer escrita por nós, dedicada a quem...

Escolha muito bonita. Serei capaz de escolher um deles... Levá-lo comigo!

Beijinho**

Alberto Campos disse...

Alguns já li e recrdo quase cor na alma que me anima mas enm sempre. O "Não te deixarei morrer..." e dentro deste o trecho que escolheste foi, de facto o meu favorito. Talvez porque, infelizmente, nunca soube amar em silencio.
Como diria o Zafon (El Juego del angel) que é um autor que recomendo: "os livros tem 2 almas: a de quem escreve e a de quem lê". Talvez por isso eu proprio sejam muitas almas numa só sem saber bem qual me anima mais.
Está frio...apetece o silencio de um livro acompanhado com o crepitar da lareira. Apetece aquele afecto que tarda por tantas vezes recusado.

Maria disse...

Os livros são os presentes que me dou. E a outros, também.
De todos os que mencionas não conheço Etty Hillesum, e espero que o Pedro Branco decida daqui a um tempo colocar outro cá fora.
Excelente partilha.

Obrigada,Ni.
Um abraço, sem ficar na dúvida...
:)

Quase nos 50 disse...

Há um livro dos sugeridos que me é muito caro:"Não te deixarei morrer, David Crockett"
Foi, para mim, um livro marcante. Um dos livros da minha vida.
De "Ensaio sobre a cegueira" recomendo o filme.
Uma outra maneira de sentir.
Um abraço