Pintura: Debra Sievers , 'Twilight Dream'
Ela gostaria de lhe dizer que no mais fundo da sua alma sabia que ele um dia viria.
Não como o príncipe encantado dos contos de fadas, a tropel num corcel de crina desgrenhada, branca ou negra, robusto como os cavalos árabes, ou um Lusitano puro,... mas com aquele ar de solidão arrancada do passado. Um passado tão distante e marcado a ferro e fogo na alma do presente.
Ela gostaria de lhe dizer que por ele quebrara regras, sonhara infinitos e inventara momentos mágicos apenas ao som de uma Voz.
Ela gostaria de lhe contar que as cerejas se tinham tornado o fruto proibido e não a maçã... e que não seriam envenenadas, porque demasiado perfeitas para que qualquer elemento as modificasse, tal como o sentimento dela por ele.
Ela gostaria de lhe segredar que era por entre os papéis de carta que guardava nos seus segredos, que passava os dedos, os medos, e sonhava com a mão dele na dela... e sentia o tacto, o olfacto, o olhar, a voz, o paladar da pele dele salgada e amarga...
Gostaria de lhe dizer que um dia, ainda que muito longínquo, ela sabia que ele havia de vir, não como D. Sebastião surgido do nevoeiro, mas como o homem da sua vida, rompendo a bruma do frio da distância e ficando, sereno e calado, com as mãos dele descansadas nas dela..
Silenciosas e quentes, roubando o gelo das suas mãos.
Ela gostaria...
ACCB
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Ela gostaria de lhe dizer que sabia que um dia ele chegaria, qual brisa amena em noites de Verão. Mas apesar de não lho dizer, sabia que ele adivinharia os seus murmúrios na voz do vento, zéfiro amoroso das constelações que percorre galáxias de sonho e inunda as estrelas de vida e sorrisos.
Ela gostaria de lhe dizer que nascem auroras nos olhos da noite quando a reminiscência a abraça no silêncio das horas e lhe revela segredos das estrelas... que o orvalho das madrugadas traz o paladar das suas lágrimas perdidas no suspiro fortuito do seu coração. E o aroma da Lua? Como explicar-lhe que Ela veste o perfume inquieto dos pensamentos dele, incensos balsâmicos de saudade a impregnar-se nos sentidos da sua alma?
Ela gostaria tanto de lhe dizer que acaricia as letras que escorregam dos seus dedos de vento e se encontram no oásis dos astros poisando como plumas no âmago do seu ser... metáforas azuis esvoaçantes que cintilam entre fragrâncias cálidas de jasmim e brisas etéreas, transparentes de desejo e afecto.
Muitas pedras os separam, muitos castelos em ruínas... muitas vidas resguardam tantas recordações adormecidas...Subsiste a esperança, esse alento intrínseco que tudo move. Relatos silenciosos do cosmos ultrapassam a distância dos mundos... grito alucinante no peito que ecoa no mesmo céu e une almas... num laço [e] terno.
Ela sabia que ele viria e quando os seus olhares se tocassem, eles beijariam a memória ancestral da mesma saudade, o deserto das suas existências dissipar-se-ia com as brumas da espera... semeando flores de ternura no jardim dos seus corações... espargindo cânticos de eternidade pelo universo.
Ela gostaria tanto... tanto...
Fanny
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Ele gostaria de lhe dizer que sabia que um dia ela viria, mas como tudo não passava de intuição, ficou-se pelos seus silêncios, pelo olhar vago e até um sorriso de desdém, tantas vezes de viés, reflectido no espelho gasto da enorme sala onde passava os seus dias de solidão, a solidão que ia descontando no tempo, envergonhada solidão de fidalgo cansado, a barba rala, os olhos afundados, testa enrugada, um leve tremor dos lábios quando as pombas tontas batiam as asas no peitoril da janela e voavam. Para lá. Os relógios quietos de tanta espera eram mudos, encolhidos, assustados pela tempestade que vinha, sentia-se o cheiro dela, viva, as árvores do pomar inquietas, o céu escuro praticamente ausente, e o fildalgo de olhar de viés, temendo a magia das serpentes que não eram a não ser na imaginação delirante, que se estendia para lá dos vidros convenientemente baços pela usura e pela falta dela. Sentou-se ele, à espera dela. Fumava um cigarro. Bebericava um copo de vinho tinto, sabor intermitente, um copo que sugeria um corpo de mulher, prazer adivinhado, palmas das mãos suaves que ele imaginava no corpo dela, se ela viesse e entrasse, ali, o corpo húmido dos cansaços e do que tinha aquietado os relógios e as pombas e tornado os pomares inquietos e as serpentes que obviamente não eram, estilhaços apenas do que ele via através do espelho da sala grande. Estilhaços de um vulto. De um vulto. Um esboço que, pouco-a-pouco se desenhava, coisa estranha, mescla de várias coisas que enrugavam o rosto esculpido do fidalgo que amava as tempestades através dos vidros baços, e só através deles, porque ele nunca saía, não por causa das serpentes - era o abutre e o milhafre e os fantasmas - e ele adormeceu, sentado na velha poltrona e dormia quando ela entrou, mansa, o corpo firme, o olhar doce, odor de pomar inquieto e ele acordou e recolheu-a num abraço e num beijo, sobretudo num beijo, obra que parecia inacabada. Inacabada. Mesmo quando ele desceu dos lábios cheios, do peito, rasto de saliva, os pés. Ela veio.
JM Coutinho Ribeiro
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Ambos gostariam de dizer ao outro... que sim, sabiam. Para além das lágrimas, para além do vazio, para além da Estrada da Eternidade, eles sabiam... que ambos entrelaçariam suas Linhas de Vida, novamente. Em Espirais de Amor, em florestas e vales, cidades e rios, portos e mares, céus e estrelas, galáxias e infinito. E que o espelho de um, seria o olhar apaixonado, devoto, rendido, do outro. Espelho nunca fragmentado, sempre completo, reflexo puro de toques de veludo em cabelos de meninos, que descobrem pela primeira vez, num riso envergonhado e inocente, o sabor dos lábios daquela pessoa de quem gostam tanto. Pelo outro, mundos e templos erigiram, canções criaram, segredos desvendaram, tudo de si ofertaram, lágrimas beijaram, sussurros abraçaram.
Pelo outro, esqueceram sem esquecer. Olharam de esguelha aquele vulto de nome "esperança", com uma inconfessada ânsia.
Por ela, ele desenhou no Tecido do Cosmos, Teias de Luz, ao recordar-se em pormenor de cada um dos fios de cabelo dela. Por ela, ele acendeu estrelas, invocando da sua memória, o brilho da chama do amor, nos olhos dela. Por ela, ele criou esferas-mãe, aludindo à beleza das contas de um colar de pérolas que outrora, numa noite na aurora do Mundo, ela usara para ele, sobre a pele de seus seios desnudos. E os Sopros de Vida que ele ofertou a cada uma dessas esferas, eram recordações de cada uma das inspirações ofegantes do seu amor concretizado, terno e louco, suave e libertador, inocente e pagão.
Ambos gostariam de dizer ao outro, que nunca deixaram de acreditar. Que nunca, realmente, esqueceram o que era sentir o sumo de uma fruta tropical trincada, no húmido do beijo do outro. Que nunca esqueceram o toque do véu de seda da noite nos dedos do outro, percorrendo a sua pele, numa vulnerabilidade deliciosa para além do sabor de todos os manjares. Que nunca esqueceram a fragrância da Natureza num alvorecer primaveril, no cheiro a verde e pétalas da pele dela, a madeira e relva, da dele.
Ambos sabiam do gosto a oásis e tâmaras, a água cristalina em sede interminável, que teria o amarem-se novamente, quando seus corpos se entrelaçassem em amor esfomeado e meigo, como Centelha perene de Vida, em pleno deserto.
Ambos gostariam de dizer que sabiam que o outro viria...
Excelsior




































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