quinta-feira, setembro 01, 2011

POR UMA LINHA DE ÁGUA...



«Um mar rodeia o mundo de quem está só» (1),
Dizes-me...
E eu desenho-te,
no centro da palma da tua mão,
uma linha de água.

Olhas-me,
como se essa linha te lembrasse
o quanto de ti trouxe nos meus dedos.

Há caminhos verticais, sabias?
Que se descobrem em passos ancestrais,
porém sempre renovados.

Sim,
esses que te levam ao início da memória...
Onde ecoa o meu nome, que tentaste esquecer.
E o calor da pele do meu peito sobre o teu.

Sim,
esses que te lembram o prazer de negar a solidão.
E o querer de querer mais.
E mais.
Mais!


Podia contar-te o segredo da hora de águas e areias.
Onde o tempo da ausência
se dissolve na cristalização do sal.
E o encontro das aves acontece...

Mas olho-te, em silêncio.
E sorrio.
Num convite para vires até mim
por uma simples linha de água.

Vem descobrir a coragem
De falar de amor, aves, pele, tempo,
sopro, azul, vento...


Agora.


Agora!

Ni*



(1) in poema ‘Solidão’, Nuno Júdice

sexta-feira, agosto 19, 2011

ESTA NOITE

Imagem: «VÓRTICE», uma litografia de Luís Albuquerque



Esta noite
gostaria de afastar de mim
a pedra rubra da dúvida.
Dançar na espiral azul da procura,
e encontrar(-me) (n)uma resposta.
E ainda que a alma me doa,
enfeitá-la com flores amarelas.
E entre os olhos do tempo adormecer.
Adormecer.
A... dor... me... ser... (levada)


Conceição Castro (Nina)

AINDA TÊM SONHOS OS MEUS OLHOS


Texto antigo com supressões







O que sei, já alguém o sabia antes de mim.
Insensatez, acreditar que não é assim.
Exclusivamente meu é apenas este coração!
Que insiste, e recusa ser escravo das sombras...
(...)


E os meus olhos,
estes barcos sem cais,
que atravessam a chuva, temporais,
com mastros quebrados na passagem de tantos cabos...
Não naufragam...
Riscam no horizonte o limite da luz,
onde se escondem todas as asas de pássaros feridos,
mas não vencidos!
Disfarçados de luas brancas...
soltando brilho em vez de gemidos.


Ainda têm sonhos, os meus olhos..

Nina

Lisboa, numa madrugada... num momento... a ouvir «ADIA», Sarah Mclachlan


quarta-feira, agosto 10, 2011

ÉS O POEMA. E ESTÁS EM MIM...

Post recuperado
Para ler a ouvir:


(Gosto tanto...)



Em mim, moras tu. Moras na sede da minha pele, e nela te sacias, repousas e renasces. E em cada segundo... a cumplicidade do olhar, onde nos deitamos, num prazer absoluto. Sem vergonhas nem vertigens. Em mim, moras tu. Segredam-me ventos os teus segredos. Agita-se a tua alma nos meus poros. Desassossega-me o teu corpo, que me sabe as margens transbordantes, as fases crescentes e as marés vivas. Olho a página em branco e não escrevo. Hoje não te escrevo uma carta, amor. És o poema. E estás em mim.



E o resto, o resto não importa.

E sorrio...





Ni*, in Cartas a um Amor Futuro, 2008

Para ler a ouvir:


(Gosto tanto...)

terça-feira, agosto 09, 2011

O TEMPERO DA MINHA BOCA...

Post recuperado. Texto escrito em 22/2/2010




Enlaço a cor da noite com o brilho do meu cabelo, e lá fora, o vento, cúmplice e atrevido, sopra-me versos soltos, livres, sem pudor, sobre um amor ateado...

Nos meus dedos, uma palavra leve, breve, acende-me a espiral do meu olhar, mergulhado em mel e sombras. Talvez saudades...


E o tempero da minha boca intensifica-se quando a digo.


Ainda e sempre o teu nome...


Só tu conheces o meu grito desamarrado e naufragado em mar alto. E os meus sonhos, ecos dos meus ombros nus, que anseiam pelo farol da ilha onde dorme a tua voz.


E nesta tempestade de escolhas, que me esculpe desertos numa dança de areia, sinto sede das tuas mãos de poeta, amor...




Nina Castro

domingo, agosto 07, 2011

secretUM (Alquimia)

Recuperar as palavras que o tempo ofereceu ao esquecimento...

Clicar na imagem para a aumentar


SECRETUM

Eu sei... e tu também...
Desvendámos o mistério de nos encontrarmos na eternidade...
No tempo que desafia a descobrir a sua idade...
No espaço... que se confina ao cheiro do nosso abraço.
Fecha os olhos, meu segredo...
Sente a minha carícia... deixa-me ler-te o desejo... sem medo...
Vem comigo ao limiar da liberdade... de quem se revê no olhar da alma do outro...
Almas reencontradas, festejos, risos, lágrimas, excessos... que ainda assim sabem a pouco.
E o teu convite profano e sagrado,
de homem...
Que sabe tocar a essência do meu jardim alado...
Razão e coração, Alma e corpo, toque e odor...
E a tímida palavra que nos envolve... Amor...
Alquimia... Sintonia, Mago da Natura, da noite... e do dia.
Pedra Filosofal...
Cavaleiro do Graal...
Águas descendentes do Céu, misturam-se com as águas ascendentes da Terra.
(Na tua voz descobri o cântico final, mantra de PAZ... ausência da chama da guerra.)
E na tua entrega... homem que anseia nos meus braços tornar-se um menino...
União a duas almas com o divino...
Purificação , libertação das amarras, da queda redenção...
União a um só coração.
E no meu ventre, de ti molhado, salgado...
Água ardente, Ar, Terra e Fogo húmido... confluem para o momentUM sagrado...
O 'UM'... de novo...
há gerações apartado.
E o oculto se desvenda, quinta-essência...
E assim se cumpre a Roda do Tempo...
Alma, espírito, matéria... transmutada em anulação de ausência.
E assim se cala o lamento...
*
Ni*

sexta-feira, agosto 05, 2011

LEVA-ME... (LEVAS?)



Leva-me,
por entre as luas,
por entre os veleiros,
por entre as palavras,
por entre os azuis,
por entre as certezas,
por entre os teus braços.
E não me deixes voltar à tristeza.
Nunca mais.
*
Nina Castro, in 'Cartas a um Amor Futuro I'

COMO BARCOS VERMELHOS...

Post resgatado ao tempo...

 
Pintura: Jia Lu - Adrift

Ela abraçou as palavras e a seguir despiu-as, letra a letra, devagar, como barcos vermelhos que lhe saíam dos dedos. Em silêncio. Como um ser alado da noite. Criatura onírica, transparente, indizível e única. Trazia no espelho do olhar todas as mulheres que ousara ser. Olhou-o de frente, como se olhasse para a estrela da manhã, e murmurou-lhe:
'- E pela última vez te contarei como me pinto de asas em noites de paixão. E pela última vez te segredo que fui flor de papel de seda colorido e fui menina com tranças em frágeis laços de papel de lua e fui noiva em moldura de flor de laranjeira e fui palhaço de rábulas surrealistas e delirantes e fui princesa de povos mágicos e dolorosamente reais e fui pérola tão impossível de tão pura e fui segredo em silêncio de homens proibidos e fui mulher em chamas vestida de negro e fui jardim onde repousas as ternuras que não confessas e fui jóia que usaste ao peito como medalha e fui sereia para que tu fosses capitão e fui pirata para que usasses o tesouro que era meu. E hoje, meu amor, desejo apenas que digas o meu nome...'

Nina Castro, in 'Cartas a um Amor Futuro' (excertos)

quinta-feira, julho 21, 2011

VIESTE. TRINTA LUAS E UM EQUINÓCIO DEPOIS...


Vieste. Trinta luas e um equinócio depois. Vieste e trazias promessas e memórias e sonhos sépia, colados ao teu nome que eu nunca deixei de conjugar. Vieste. E ofereceste-me a tua boca desenhada a beijos e mar. Vieste. E leste-me os olhos de brumas que, para ti, se abriram. Entendi, trinta luas e um equinócio depois, que o teu abraço, que tanto esperei, era interdito, peregrino, nómada, fluido. Como as marés e as fases lunares, guardiãs que nos sabem e nos velam. Vieste e partiste. Levaste-me a espera e a esperança e os meus dedos de água na tua pele. Deixaste-me a lua. E as marés.

Ni*

(Escrito na sequência da leitura de um texto... que me tocou muito profundamente...)

domingo, maio 29, 2011

UMA URGÊNCIA RASANDO O INFINITO...



Regresso a casa, ao lugar de mim, e escrevo...

Eu, no esconjuro do meu próprio nome, que me pertence, digo-me segredos de anjos, de luares alados no meu ventre, e de mãos... as tuas... decerto... transgredindo a progressão das horas.

Quero proferir todos os nomes como quem desata umas asas. As minhas. Emaranhadas , mas não inertes.

Das minhas mãos escorrem pingos de luz... (Ah... ter rio e mar na espuma de um poema!). Seguro as asas na mão e vou, por este leito de luz e água, os olhos abertos na pureza de quem não teme a verdade, e a rebentação toda no peito. Os meus seios inventam duas margens - onde tu te sentes mais homem - e assim se maravilham os meus passos.

Amo esse instante, a brevíssima pausa antes de murmurar o teu nome guardado em segredo, e mais um dia esculpido na minha memória... letra a letra...

Em dias como este, lentos, lisos, brancos e quentes, pela janela do meu quarto sai um sussurro, um restolhar brando, quase de pássaros, quase de árvores, quase de flor.

Cá dentro, o meu anjo despe as suas asas e um vento-brisa levanta-se nas planuras do meu ventre-canela. A tua voz, o riso manso dos teus olhos, os teus beijos de plumas e de sossego, crescem em mim como mãos.

Não sei de hora mais hora em mim que possa, com o ir e vir das horas e das marés, ser mais mar... mais amor... em refluxos de sal e onda, que o amar-te por sobre o dia e por sobre o tempo do dia, que olhar o infinito do ir e vir aqui, perante as ondas, perante o (a)mar, e descobrir que sobra sempre mais sal de marés, mais sal de marés e de tempo, que se desfaz noutro - e ainda mesmo sentir - como areia da praia toda líquida, ou água de mar toda nuvem, que esconde em si todo o sol e todo o azul de céu infinito.

Não sei de outra coisa, amor, que amar o mar e o amor, que amar-te no mar deste amor, e assim erguer o meu corpo perante o dia... sobre ti.


Ni*


quarta-feira, maio 18, 2011

DUMA CARTA...

Post recuperado...
(roubado ao tempo-esquecimento...)


Desafio da Cleopatra:


MOTE:

“Duma Carta”


Escrevi-te ontem
somente para dizer
das minhas mágoas e do meu amor…
O Sol morria…
Tudo era sombra em redor
e eu…, ainda escrevia…

A pena sempre a correr
sobre o papel,
deixava cintilações,
nas pedras do meu anel!

E a pena corria…
Nem precisava ver, o que escrevia!

Anoitecera.
…………………………………………
Como eu em toalha de altar
A mesa
revestiu-se de luar!…

Nascera a lua.
E a pena, nos bicos leves,
dizia ainda:
– Sou tua!
Por que é que me não escreves?
Mas o papel acabou
e a pena continuou:
Por que é que me não escreves?
O meu amor é todo teu.
Só eu te sei amar!
– Só eu!…

Janeiro
1922


Judith Teixeira


~*~

(Foto-montagem: imagem retirada do blog da Cleopatra sobre foto minha. )



«Escrevi-te ontem
somente para dizer»


Que continuo aqui, parada no hoje. Como passageira adiada numa estação-desencontro, onde o comboio nunca tem o destino certo e onde as horas são sempre amanhã.
Se pelo menos soubesse falar-te de amores e lhes retirasse todas as rimas óbvias, gastas e repetitivas, com dores, talvez me aninhasse no silêncio de uma palavra onde esta distância-uivo-de-lua-nascente-mais-que-presente cessasse no agora e... para sempre. Mas onde e como esconder de ti o rio de fogo das saudades? Tudo passa, dizem. E todos os rios secam, dizem também. Menos um, feito abraço embalado e suspirado, por onde navegámos negando a solidão da noite. Lembras-te?
Mas eles, os que tanto dizem, não sabem.

E ninguém, nunca, saberá, que ainda permaneço deste lado do tempo onde sou tua.
Nem tu.

Nem tu...

«Por que é que me não escreves?»


CC (Ni*)

Fevereiro, 2009


sábado, março 19, 2011

UM POEMA DE AMOR (lido por mim)

PINTURA: RASSOULI



Pedro, lembrando Inês

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: "Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios? "Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fundo do mundo que me deste.

Nuno Júdice




Nunca escondi a paixão literária pelo meu mestre, Nuno Júdice. É, para mim, O poeta português da actualidade, que me emociona para além do 'dizível'. Esta colectânea de poemas, 'Pedro, Lembrando Inês', é de uma beleza que desafia a nossa incredulidade face ao impossível. Sim, é possível escrever-se assim.
E que bom que é respirar esta poesia, professor...


(A minha leitura do poema, nesta tarde de sol...)

terça-feira, janeiro 04, 2011

AS CEREJEIRAS JÁ FLORIRAM NO MEU PEITO, AMOR...

Para quem, como eu, ama as cerejeiras... para quem, como eu, ama Neruda...
«Quero fazer contigo o que a Primavera faz com as cerejas...»...


Podia dizer-te que me fazes falta.
Podia contar-te como as minhas mãos me contam dos seus gestos suspensos, porque tu não estás para acabar o verso.
Podia falar-te da vontade de desenhar reticências de chuva, com os silêncios que me escorrem dos olhos.
Podia dançar-te, num murmúrio de voz que te envolvesse em aromas de pomares, de tulipas e de afectos.
Podia voltar a dizer-te que me fazes falta no beijo há tanto tempo adiado, que trouxesse tudo com ele... o mar, as ondas, as gaivotas, as conchas, a vontade de ficar, o teu perfume, invencível, na memória da minha pele.
(...)
Mas eu calo-me. Espero que tu saibas. Espero que tu sintas tudo o que te poderia dizer em cada momento que deixo por aí, livre, entregue ao som do vento, que insisto em oferecer diluído em abraços. Como toque de areia fina. Como toque de acaso encantado.

Espero que tu saibas. Espero que tu sintas.


É que as cerejeiras já floriram no meu peito, amor...


Ni, in Cartas a Um Amor Futuro
(s.d.)

segunda-feira, janeiro 03, 2011

À DISTÂNCIA DO FICAR...



O abraço deles enciumou de espanto as luas, na eternidade daquele momento que sabiam roubado à corrente dos dias. E o tempo era uma data sem números... e o espaço era uma pátria só deles, cujo nome era feito de palavras renovadas e puras, emudecidas de prazer...
Ela deixou fluir da voz a lágrima engolida, embalada pela aragem quase quente de muitas vontades reaprendidas, num regresso a um sentir que continha vidas e mares, desertos e violinos, gôndolas e frutos maduros. E sonhos. Muitos. E murmurou-lhe '-Não vás...', como quem lhe desenha na palma das mãos o destino fugidio que estava ali... à distância do ficar...


Ni*

quarta-feira, novembro 24, 2010

AZUL-MAIS-QUE-PERFEITO

Post recuperado...
(Porque hoje preciso de acreditar no que escrevi neste post...)

Não sermos felizes não pressupõe que sejamos infelizes.
As pessoas que, não sendo felizes, não são infelizes, são como... peregrinos... alquimistas, talvez. Pessoas que emigram num sonho e se orientam como se lessem os astros. E de cada vez que mergulham no céu, nos olhos de quem olham, descobrem que um ninho de estrelas morou, sempre, ao pé de si.
E que as flores, afinal, têm a sua cor preferida e o aroma a azul-mais-que-perfeito...
...
E (apesar de tudo) eu sorrio.

Ni*... cansada, tão cansada...


terça-feira, novembro 23, 2010

NÃO TE NEGUES...

Outro post recuperado ao tempo.
Já o vi por aí, plagiado... adaptado ao masculino... à variante do português do Brasil. Não importa. Não sou dona das palavras que escrevo... pois minhas, são apenas as emoções.



Não te negues. Não te negues aos meus dedos, nem te faças improvável ao meu toque. O meu corpo grita pelo sal dos teus contornos e as minhas águas anseiam quebrar-se em ondas sobre ti. O sopro do sussurrar o teu nome atrai os pássaros da saudade pelo que serás para o meu peito. A tua ausência atravessa a noite em cada hora e mantém-me cativa e desperta, sempre alerta e inteira. Sinto-me a eterna espera, a eterna véspera do teu abraço. E sou tua, mesmo antes de saber-te. Mesmo que nunca me saibas. Sou tua em detalhes mínimos, nas latências, nas grandezas, nos desvarios e indecências. Então, vem... despe o medo, arranca a venda dos olhos da memória. Volta os passos, apaga o tempo. Reinventa o sonho e faz amanhecer o meu olhar.
*
«CARTAS A UM AMOR FUTURO» *
* Um projecto de projecto.

EM GEMIDOS DE PORTAS BRANCAS E TRANSLÚCIDAS CORTINAS...

(Post recuperado, roubado ao tempo...)

(Fotos de MARTYNAS MILKEVICIUS)


E tudo é tão real como as brumas que abraçam este meu rio de memórias. Como o teu corpo quente, aproximando-se de mim... devagar. Como o teu olhar distraído, que me despe na rua sem pudor. Como a força dos teus braços que me atiram para a cama. Como a tua voz rouca que me confessa fantasias gozadas no meu corpo e na minha alma. Como a forma doce como me despes à pressa. Como os nomes com que me nomeias, à bruta. Como as horas longas e brancas em que nos gozamos. Em silêncio, em gemidos de portas fechadas e translúcidas cortinas. Ao espelho, no brilho dos olhares negros e intensos. Nas gargalhadas da cumplicidade do jogo.
E o que existe nos momentos em que falamos o silêncio e a música dos corpos é a única verdade.
...
Até ao momento exacto em que a verdade se torna poema.
Por ti, meu amor. Por ti.

Ni*, in 'Cartas a um amor futuro'

quinta-feira, novembro 18, 2010

«TODA A MANHÃ PROCUREI UMA SÍLABA»


«Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa, é certo: uma vogal,
uma consoante,
quase nada.
Mas faz-me falta.
Só eu sei a falta que me faz.»
*
Eugénio de Andrade


Toda a manhã procurei uma sílaba.
Numa rima inacabada, no teu nome ausente,
Numa maré alta e ousada, numa memória persistente,
Num verso semelhante ao do Poeta,
Onde geme o encanto do seu ‘amor ardente’.

Toda a manhã procurei uma sílaba.
Escondida nos meus olhos, lá fundo…. no lago,
Suave como o primeiro canto de uma ave, saudade minha,
Com odor a ti, tatuagem que nos poros trago,
Subtil, como o voo quente de andorinha.

Faz-me falta, a sílaba perdida,
Procurei-a no espelho,
No estilhaço da rima outrora cruzada... e nada.
*
Não a encontrei.
Nem numa vogal esquecida.
Nem numa interjeição mordida, à despedida.
*
Talvez a tenha dado no abraço derradeiro,
Talvez a tenha colocado na tua pele, amor meu,
Ainda e sempre o primeiro.
*
Ni*

sábado, outubro 09, 2010

ATÉ TE EMBRIAGARES DE BARCOS VERMELHOS E DE MAR...


Há Outono no vento que pintou de sombra o teu nome, amor. Hoje, amor, poderia festejar contigo o vermelho das folhas vivas e não caídas, das árvores do jardim de todos os amantes de todos os tempos. Mas continuas ausente das minhas mãos, que tantas vezes te inventaram nas madrugadas de pássaros exilados em mim. A tua ausência... neguei-a mais do que três vezes, bebi-a com água e sal, mas a tua sombra, amor, é uma tristeza que obscurece as luas peregrinas que escolheram os meus olhos como casa. Quando não (re)encontramos o eco da nossa memória no sorriso do outro... o que perdemos são os mundos... este, que tanto amo, e todos os outros, reinos de todas as possibilidades.
Mas ainda há tempo, amor! Ainda há bagos de uvas doces e ousadas, em oferta pagã, à espera que trinques todas as palavras de distância e fiques em mim. Ainda há tempo, amor! As romãs esperam que as dispas e te sacies no (seu/meu) ventre doce, até te embriagares de barcos vermelhos e de mar...
...
Ainda há tempo, amor!

Ni* (‘Cartas a um amor futuro’, - volume II -, Do amor e das estações, Outubro 2010)

sábado, outubro 02, 2010

5 anos de momentUS...


Gota a gota... emoção a emoção... palavra a palavra...
do nada me (re)erguerei...
*
Comecei, assim, este blogue há 5 anos...
Poderia escrever, hoje, exactamente o mesmo. O percurso, esse, decerto muito diferente. Felizmente!
Porque é de ecos de passos perdidos que a solidão é feita... mas a música que quero na minha vida só rima com sílabas abertas e felizes.
E... permitam-me a ousadia... eu mereço!
*
Abraço de vento a todos os amigos que por aqui, e não só, me mimam com o seu carinho.
*
Ni*
*
*
«Todos os livros, todos os volumes que vês à tua frente, têm alma. A alma de quem os escreveu, a alma daqueles que os leram e viveram e sonharam com eles. De cada vez que um livro muda de mãos, de cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se mais forte.»
*
in O Jogo Do Anjo, Carlos Ruiz Zafón
*
*
... assim é também com cada palavra.
Cada palavra tem alma. Cada palavra ganha outra dimensão quando um amigo a lê e lhe acrescenta a sua essência. Obrigada por, como eu, amarem as palavras e as purificarem todos os dias...