quarta-feira, maio 18, 2011

DUMA CARTA...

Post recuperado...
(roubado ao tempo-esquecimento...)


Desafio da Cleopatra:


MOTE:

“Duma Carta”


Escrevi-te ontem
somente para dizer
das minhas mágoas e do meu amor…
O Sol morria…
Tudo era sombra em redor
e eu…, ainda escrevia…

A pena sempre a correr
sobre o papel,
deixava cintilações,
nas pedras do meu anel!

E a pena corria…
Nem precisava ver, o que escrevia!

Anoitecera.
…………………………………………
Como eu em toalha de altar
A mesa
revestiu-se de luar!…

Nascera a lua.
E a pena, nos bicos leves,
dizia ainda:
– Sou tua!
Por que é que me não escreves?
Mas o papel acabou
e a pena continuou:
Por que é que me não escreves?
O meu amor é todo teu.
Só eu te sei amar!
– Só eu!…

Janeiro
1922


Judith Teixeira


~*~

(Foto-montagem: imagem retirada do blog da Cleopatra sobre foto minha. )



«Escrevi-te ontem
somente para dizer»


Que continuo aqui, parada no hoje. Como passageira adiada numa estação-desencontro, onde o comboio nunca tem o destino certo e onde as horas são sempre amanhã.
Se pelo menos soubesse falar-te de amores e lhes retirasse todas as rimas óbvias, gastas e repetitivas, com dores, talvez me aninhasse no silêncio de uma palavra onde esta distância-uivo-de-lua-nascente-mais-que-presente cessasse no agora e... para sempre. Mas onde e como esconder de ti o rio de fogo das saudades? Tudo passa, dizem. E todos os rios secam, dizem também. Menos um, feito abraço embalado e suspirado, por onde navegámos negando a solidão da noite. Lembras-te?
Mas eles, os que tanto dizem, não sabem.

E ninguém, nunca, saberá, que ainda permaneço deste lado do tempo onde sou tua.
Nem tu.

Nem tu...

«Por que é que me não escreves?»


CC (Ni*)

Fevereiro, 2009


sábado, março 19, 2011

UM POEMA DE AMOR (lido por mim)

PINTURA: RASSOULI



Pedro, lembrando Inês

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: "Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios? "Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fundo do mundo que me deste.

Nuno Júdice




Nunca escondi a paixão literária pelo meu mestre, Nuno Júdice. É, para mim, O poeta português da actualidade, que me emociona para além do 'dizível'. Esta colectânea de poemas, 'Pedro, Lembrando Inês', é de uma beleza que desafia a nossa incredulidade face ao impossível. Sim, é possível escrever-se assim.
E que bom que é respirar esta poesia, professor...


(A minha leitura do poema, nesta tarde de sol...)

terça-feira, janeiro 04, 2011

AS CEREJEIRAS JÁ FLORIRAM NO MEU PEITO, AMOR...

Para quem, como eu, ama as cerejeiras... para quem, como eu, ama Neruda...
«Quero fazer contigo o que a Primavera faz com as cerejas...»...


Podia dizer-te que me fazes falta.
Podia contar-te como as minhas mãos me contam dos seus gestos suspensos, porque tu não estás para acabar o verso.
Podia falar-te da vontade de desenhar reticências de chuva, com os silêncios que me escorrem dos olhos.
Podia dançar-te, num murmúrio de voz que te envolvesse em aromas de pomares, de tulipas e de afectos.
Podia voltar a dizer-te que me fazes falta no beijo há tanto tempo adiado, que trouxesse tudo com ele... o mar, as ondas, as gaivotas, as conchas, a vontade de ficar, o teu perfume, invencível, na memória da minha pele.
(...)
Mas eu calo-me. Espero que tu saibas. Espero que tu sintas tudo o que te poderia dizer em cada momento que deixo por aí, livre, entregue ao som do vento, que insisto em oferecer diluído em abraços. Como toque de areia fina. Como toque de acaso encantado.

Espero que tu saibas. Espero que tu sintas.


É que as cerejeiras já floriram no meu peito, amor...


Ni, in Cartas a Um Amor Futuro
(s.d.)

segunda-feira, janeiro 03, 2011

À DISTÂNCIA DO FICAR...



O abraço deles enciumou de espanto as luas, na eternidade daquele momento que sabiam roubado à corrente dos dias. E o tempo era uma data sem números... e o espaço era uma pátria só deles, cujo nome era feito de palavras renovadas e puras, emudecidas de prazer...
Ela deixou fluir da voz a lágrima engolida, embalada pela aragem quase quente de muitas vontades reaprendidas, num regresso a um sentir que continha vidas e mares, desertos e violinos, gôndolas e frutos maduros. E sonhos. Muitos. E murmurou-lhe '-Não vás...', como quem lhe desenha na palma das mãos o destino fugidio que estava ali... à distância do ficar...


Ni*

quarta-feira, novembro 24, 2010

AZUL-MAIS-QUE-PERFEITO

Post recuperado...
(Porque hoje preciso de acreditar no que escrevi neste post...)

Não sermos felizes não pressupõe que sejamos infelizes.
As pessoas que, não sendo felizes, não são infelizes, são como... peregrinos... alquimistas, talvez. Pessoas que emigram num sonho e se orientam como se lessem os astros. E de cada vez que mergulham no céu, nos olhos de quem olham, descobrem que um ninho de estrelas morou, sempre, ao pé de si.
E que as flores, afinal, têm a sua cor preferida e o aroma a azul-mais-que-perfeito...
...
E (apesar de tudo) eu sorrio.

Ni*... cansada, tão cansada...


terça-feira, novembro 23, 2010

NÃO TE NEGUES...

Outro post recuperado ao tempo.
Já o vi por aí, plagiado... adaptado ao masculino... à variante do português do Brasil. Não importa. Não sou dona das palavras que escrevo... pois minhas, são apenas as emoções.



Não te negues. Não te negues aos meus dedos, nem te faças improvável ao meu toque. O meu corpo grita pelo sal dos teus contornos e as minhas águas anseiam quebrar-se em ondas sobre ti. O sopro do sussurrar o teu nome atrai os pássaros da saudade pelo que serás para o meu peito. A tua ausência atravessa a noite em cada hora e mantém-me cativa e desperta, sempre alerta e inteira. Sinto-me a eterna espera, a eterna véspera do teu abraço. E sou tua, mesmo antes de saber-te. Mesmo que nunca me saibas. Sou tua em detalhes mínimos, nas latências, nas grandezas, nos desvarios e indecências. Então, vem... despe o medo, arranca a venda dos olhos da memória. Volta os passos, apaga o tempo. Reinventa o sonho e faz amanhecer o meu olhar.
*
«CARTAS A UM AMOR FUTURO» *
* Um projecto de projecto.

EM GEMIDOS DE PORTAS BRANCAS E TRANSLÚCIDAS CORTINAS...

(Post recuperado, roubado ao tempo...)

(Fotos de MARTYNAS MILKEVICIUS)


E tudo é tão real como as brumas que abraçam este meu rio de memórias. Como o teu corpo quente, aproximando-se de mim... devagar. Como o teu olhar distraído, que me despe na rua sem pudor. Como a força dos teus braços que me atiram para a cama. Como a tua voz rouca que me confessa fantasias gozadas no meu corpo e na minha alma. Como a forma doce como me despes à pressa. Como os nomes com que me nomeias, à bruta. Como as horas longas e brancas em que nos gozamos. Em silêncio, em gemidos de portas fechadas e translúcidas cortinas. Ao espelho, no brilho dos olhares negros e intensos. Nas gargalhadas da cumplicidade do jogo.
E o que existe nos momentos em que falamos o silêncio e a música dos corpos é a única verdade.
...
Até ao momento exacto em que a verdade se torna poema.
Por ti, meu amor. Por ti.

Ni*, in 'Cartas a um amor futuro'

quinta-feira, novembro 18, 2010

«TODA A MANHÃ PROCUREI UMA SÍLABA»


«Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa, é certo: uma vogal,
uma consoante,
quase nada.
Mas faz-me falta.
Só eu sei a falta que me faz.»
*
Eugénio de Andrade


Toda a manhã procurei uma sílaba.
Numa rima inacabada, no teu nome ausente,
Numa maré alta e ousada, numa memória persistente,
Num verso semelhante ao do Poeta,
Onde geme o encanto do seu ‘amor ardente’.

Toda a manhã procurei uma sílaba.
Escondida nos meus olhos, lá fundo…. no lago,
Suave como o primeiro canto de uma ave, saudade minha,
Com odor a ti, tatuagem que nos poros trago,
Subtil, como o voo quente de andorinha.

Faz-me falta, a sílaba perdida,
Procurei-a no espelho,
No estilhaço da rima outrora cruzada... e nada.
*
Não a encontrei.
Nem numa vogal esquecida.
Nem numa interjeição mordida, à despedida.
*
Talvez a tenha dado no abraço derradeiro,
Talvez a tenha colocado na tua pele, amor meu,
Ainda e sempre o primeiro.
*
Ni*

sábado, outubro 09, 2010

ATÉ TE EMBRIAGARES DE BARCOS VERMELHOS E DE MAR...


Há Outono no vento que pintou de sombra o teu nome, amor. Hoje, amor, poderia festejar contigo o vermelho das folhas vivas e não caídas, das árvores do jardim de todos os amantes de todos os tempos. Mas continuas ausente das minhas mãos, que tantas vezes te inventaram nas madrugadas de pássaros exilados em mim. A tua ausência... neguei-a mais do que três vezes, bebi-a com água e sal, mas a tua sombra, amor, é uma tristeza que obscurece as luas peregrinas que escolheram os meus olhos como casa. Quando não (re)encontramos o eco da nossa memória no sorriso do outro... o que perdemos são os mundos... este, que tanto amo, e todos os outros, reinos de todas as possibilidades.
Mas ainda há tempo, amor! Ainda há bagos de uvas doces e ousadas, em oferta pagã, à espera que trinques todas as palavras de distância e fiques em mim. Ainda há tempo, amor! As romãs esperam que as dispas e te sacies no (seu/meu) ventre doce, até te embriagares de barcos vermelhos e de mar...
...
Ainda há tempo, amor!

Ni* (‘Cartas a um amor futuro’, - volume II -, Do amor e das estações, Outubro 2010)

sábado, outubro 02, 2010

5 anos de momentUS...


Gota a gota... emoção a emoção... palavra a palavra...
do nada me (re)erguerei...
*
Comecei, assim, este blogue há 5 anos...
Poderia escrever, hoje, exactamente o mesmo. O percurso, esse, decerto muito diferente. Felizmente!
Porque é de ecos de passos perdidos que a solidão é feita... mas a música que quero na minha vida só rima com sílabas abertas e felizes.
E... permitam-me a ousadia... eu mereço!
*
Abraço de vento a todos os amigos que por aqui, e não só, me mimam com o seu carinho.
*
Ni*
*
*
«Todos os livros, todos os volumes que vês à tua frente, têm alma. A alma de quem os escreveu, a alma daqueles que os leram e viveram e sonharam com eles. De cada vez que um livro muda de mãos, de cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se mais forte.»
*
in O Jogo Do Anjo, Carlos Ruiz Zafón
*
*
... assim é também com cada palavra.
Cada palavra tem alma. Cada palavra ganha outra dimensão quando um amigo a lê e lhe acrescenta a sua essência. Obrigada por, como eu, amarem as palavras e as purificarem todos os dias...

segunda-feira, agosto 02, 2010

PRESENÇA... AUSÊNCIA...


PRESENÇA

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos…
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.


Mário Quintana

*

AUSÊNCIA

Preciso que a memória te reinvente em linhas de água,
que resgate o teu beijo mordido, rio ávido,
e o cole suavemente na minha boca,
onde silêncios e murmúrios agitam o vento das horas brancas.

Preciso que a tua presença desenhe no ar jasmins
e me lamba as mãos com sabor a rosmaninho,
onde guardei o teu nome à espera das marés com luas quentes.

E quando surgires nos meus olhos, iluminados pela tua voz
e pelas cerejeiras em cio, deixa-me beber todos os que és.

E fica, assim, em mim...


Ni

MEMÓRIAS EM VOO LIVRE...


Memórias em voo livre

(...)



Pousei as palavras com sabor a outrora.
Olho-as...
Conheço-lhes o travo nesta meia memória a meio da vida.
Doces e salgadas, encontro e partida.
Sigo o gesto que a minha mão traça entre o que passou e o agora...

E sem o tempo ver,
roubo o instante entre o nunca e o sempre.
Onde não são necessárias despedidas, escolher...
Onde posso apenas, livremente, SER.
Precioso fio, guardado na luz do espelho,
que voou da caixa da memória.
Entre tu e eu, ainda e persistente,
a interminável história.

Conto os passos ao ritmo deste coração descompassado,
que me pede para não escolher o que já está escolhido...
Nas memórias reflectido, de um presente passado.
...

Os pássaros, pousados,
suspensos na eternidade,
têm a calma da saudade...

Não te esqueci, é verdade!

E se comigo sempre amanheces, diz-me...
De que outros mundos me conheces?

...
Ni*



terça-feira, julho 13, 2010

secretUM

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SECRETUM

Eu sei... e tu também...
Desvendámos o mistério de nos encontrarmos na eternidade...
No tempo que desafia a descobrir a sua idade...
No espaço... que se confina ao cheiro do nosso abraço.
Fecha os olhos, meu segredo...
Sente a minha carícia... deixa-me ler-te o desejo... sem medo...
Vem comigo ao limiar da liberdade... de quem se revê no olhar da alma do outro...
Almas reencontradas, festejos, risos, lágrimas, excessos... que ainda assim sabem a pouco.
E o teu convite profano e sagrado,
de homem...
Que sabe tocar a essência do meu jardim alado...
Razão e coração, Alma e corpo, toque e odor...
E a tímida palavra que nos envolve... Amor...
Alquimia... Sintonia, Mago da Natura, da noite... e do dia.
Pedra Filosofal...
Cavaleiro do Graal...
Águas descendentes do Céu, misturam-se com as águas ascendentes da Terra.
(Na tua voz descobri o cântico final, mantra de PAZ... ausência da chama da guerra.)
E na tua entrega... homem que anseia nos meus braços tornar-se um menino...
União a duas almas com o divino...
Purificação , libertação das amarras, da queda redenção...
União a um só coração.
E no meu ventre, de ti molhado, salgado...
Água ardente, Ar, Terra e Fogo húmido... confluem para o momentUM sagrado...
O 'UM'... de novo...
há gerações apartado.
E o oculto se desvenda, quinta-essência...
E assim se cumpre a Roda do Tempo...
Alma, espírito, matéria... transmutada em anulação de ausência.
E assim se cala o lamento...
*
Ni*

quarta-feira, julho 07, 2010

AGORA




"Não penses para amanhã. Não lembres o que foi de ontem. A memória teve o seu tempo quando foi tempo de alguma coisa durar. Mas tudo hoje é tão efémero. Mesmo o que se pensa para amanhã é para já ter sido, que é o que desejamos que seja logo que for. É o tempo de Deus que não tem futuro nem passado. Foi o que dele nós escolhemos no sonho do nosso absoluto. Não penses para amanhã na urgência de seres agora. Mesmo logo à tarde é muito tarde. Tudo o que és em ti para seres, vê se o és neste instante. Porque antes e depois tudo é morte e insensatez. Não esperes, sê agora."

Vergílio Ferreira, in Escrever

domingo, junho 27, 2010

CHOREI COM AS MÃOS...

Chorei com as mãos,
que ainda voam...
Pela tua voz,
pelo fogo que fica da música.
Por emoções soletradas
ou caladas
ou mais uma vida adiadas.
Por horas de palavras magoadas
que transcendem o quase-impossível.
Por fim...
Deixei-me ficar
serena,
sem melodia nos olhos.
E adormeci.
Tão abraçada a mim.
Tão longe de ti.

(Belíssima, a canção...)


“Close your eyes

Let me touch you now

Let me give you something that is real



Close the door

Leave your fears behind

Let me give you what you're giving me



You are the only thing

That makes me want to live at all

When I am with you

There's no reason to pretend that

When I am with you

I feel flames again



Just put me inside you

I would never ever leave

Just put me inside you

I would never ever leave you”
...

DUMA CARTA ...

Post recuperado...
(roubado ao tempo-esquecimento...)

Desafio da Cleopatra:


MOTE:

“Duma Carta”


Escrevi-te ontem
somente para dizer
das minhas mágoas e do meu amor…
O Sol morria…
Tudo era sombra em redor
e eu…, ainda escrevia…

A pena sempre a correr
sobre o papel,
deixava cintilações,
nas pedras do meu anel!

E a pena corria…
Nem precisava ver, o que escrevia!

Anoitecera.
…………………………………………
Como eu em toalha de altar
A mesa
revestiu-se de luar!…

Nascera a lua.
E a pena, nos bicos leves,
dizia ainda:
– Sou tua!
Por que é que me não escreves?
Mas o papel acabou
e a pena continuou:
Por que é que me não escreves?
O meu amor é todo teu.
Só eu te sei amar!
– Só eu!…

Janeiro
1922


Judith Teixeira


~*~

(Foto-montagem: imagem retirada do blog da Cleopatra sobre foto minha. )




«Escrevi-te ontem
somente para dizer»


Que continuo aqui, parada no hoje. Como passageira adiada numa estação-desencontro, onde o comboio nunca tem o destino certo e onde as horas são sempre amanhã.
Se pelo menos soubesse falar-te de amores e lhes retirasse todas as rimas óbvias, gastas e repetitivas, com dores, talvez me aninhasse no silêncio de uma palavra onde esta distância-uivo-de-lua-nascente-mais-que-presente cessasse no agora e... para sempre. Mas onde e como esconder de ti o rio de fogo das saudades? Tudo passa, dizem. E todos os rios secam, dizem também. Menos um, feito abraço embalado e suspirado, por onde navegámos negando a solidão da noite. Lembras-te?
Mas eles, os que tanto dizem, não sabem.

E ninguém, nunca, saberá, que ainda permaneço deste lado do tempo onde sou tua.
Nem tu.

Nem tu...

«Por que é que me não escreves?»


Ni*

Fevereiro, 2009




terça-feira, junho 15, 2010

DESENHO-TE UM BEIJO NO POEMA...



Sei-te
através das palavras
com que vou construindo este dia novo
que agora se levanta.
Inventei-te no espaço exacto
das minhas mãos
desejosas da viagem
no teu corpo.


Dele direi:
este é o meu país por conhecer
onde ergui a minha casa
e inventei um amor
nunca antes pressentido.
Visto-me com as cores do dia nascente
e desenho-te um beijo no poema.

...


Ni*



segunda-feira, junho 07, 2010

COMO BARCOS VERMELHOS...

Pintura: Jia Lu - Adrift

Ela abraçou as palavras e a seguir despiu-as, letra a letra, devagar, como barcos vermelhos que lhe saíam dos dedos. Em silêncio. Como um ser alado da noite. Criatura onírica, transparente, indizível e única. Trazia no espelho do olhar todas as mulheres que ousara ser. Olhou-o de frente, como se olhasse para a estrela da manhã, e murmurou-lhe:
'- E pela última vez te contarei como me pinto de asas em noites de paixão. E pela última vez te segredo que fui flor de papel de seda colorido e fui menina com tranças em frágeis laços de papel de lua e fui noiva em moldura de flor de laranjeira e fui palhaço de rábulas surrealistas e delirantes e fui princesa de povos mágicos e dolorosamente reais e fui pérola tão impossível de tão pura e fui segredo em silêncio de homens proibidos e fui mulher em chamas vestida de negro e fui jardim onde repousas as ternuras que não confessas e fui jóia que usaste ao peito como medalha e fui sereia para que tu fosses capitão e fui pirata para que usasses o tesouro que era meu. E hoje, meu amor, desejo apenas que digas o meu nome...'
Ni Castro, in 'Cartas a um Amor Futuro' (excertos)

sábado, junho 05, 2010

E TU CHEGAS...

(Foi a Marta Tomé quem mo 'apresentou'. Obrigada, Marta!)


A música do império das horas brancas ressoa nas minhas mãos. O meu ser move-se em espiral. Movimentos sôfregos de luz, meneios e ondulações de Circe... em corpo de mulher. Vislumbro o teu olhar pousado nos meus gestos e sorrio-te. Outrora bordei pássaros, borboletas e anjos em lençóis de linho. Teci imagens de naus em tapeçarias intermináveis. Esculpi tranças delicadas em cabelos de crianças. As minhas leituras ofertaram-me ecos de terras remotas e em cada acorde da guitarra pressenti uma revelação dos teus passos. Eu, ainda mal resgatada das águas da saudade, deambulei pela ilha em silêncio, toquei o húmus, mergulhei nas lagoas, lancei-me nas ondas e vislumbrei conchas, pérolas e corais. Inebriei-me de todos os tons verdes. Estremeci a cada novo sabor de maresia. Entre sonhos, presságios e oráculos, descortinei o teu rosto. Sabia que tu e só tu eras o meu amor. Em cada relâmpago do meu corpo adivinhei o toque dos teus dedos. E os tons rosa e violeta da minha inocência foram trespassados por clarões rubros, incandescências minhas revelando-me a tua existência no dorso de um forasteiro, cintilações de ti profetizadas nos ombros de um viajante, esplendores adivinhados em nádegas imaginadas sob as vestes de desconhecidos. Vi-te reflectido nas lagoas. Escutei a tua voz nos trinados das aves inconformadas. Finalmente, numa manhã muito clara, tu ancoraste no cais. Surgiste tão luminoso que, por momentos, quase agarrei o fulgor dourado dos teus olhos. Descobri promessas infinitas de entrega no teu corpo. Rompi o meu casulo. Transmutei-me em criatura quase alada, ávida de vida. Iniciei danças, para ti, no despudor mais radical dos meus mistérios. Agora, em profana celebração dos nossos corpos, a minha pele abandona-se ao nosso desejo.Tenho o brasão dos teus dentes no meu ventre.Tenho as marcas da tua língua nos meus seios. Em cada entardecer aguardo o espasmo que farás nascer no meu corpo. E, nessa espera feliz, danço em sintonia com a lua, as marés, as lagoas, o vento. E na minha dança estendo-te a mão para que me acompanhes nos círculos da espiral só nossa. E tu chegas e derramas os beijos nos meus quadris, de ti saudosos...

Ni*

quarta-feira, junho 02, 2010

A ÁRVORE DE TODOS OS AMANTES

(Relembrando textos que gostei de escrever...)

*
A ÁRVORE DOS AMANTES


Encontraram-se na raiz de todo o rubro querer. Ela estendeu as mãos e soltou as palavras, num voo em ascendente espiral:
‘Hoje, meu amor, poderia falar do teu rio que em mim desagua, quando é do teu corpo dentro de meu que falamos. Ou poderia falar do nosso desejo disfarçado de mar. Agitado e gemido, colorido de céu, ébrio de maresias, com odor a infinito e sabor a nós. Poderia falar do teu orvalho, doce e salgado, nas minhas coxas. E dos teus olhos canela-tentação, quando estás em mim e queres ficar mais e mais. E ainda mais. Hoje, amor, poderia adornar-te com palavras mansas, sussurradas junto à nuca, e fazer-te nascer, uma e outra vez, no meu ventre... maré cheia e quente. Ou dançar sobre o teu peito sublimado, de sussurros tatuado, onde me ancoro. Poderia, amor, desenhar em ti gestos pausados e meigos, gemidos sentidos e até o eco da palavra AMOR. Poderia traçar suaves asas sobre o teu corpo, onde me inspiro e cavalgo. Onde me espraio no grito. Onde sou tão mulher. Mas hoje, meu amor, não quero apenas amar-te ou desejar-te. Nem sequer apenas aninhar-me em ti. Hoje quero morrer como se morre no último acto de uma peça única. E renascer, em seguida, com um outro nome que seja a tua imagem. Vem, e leva-me, com o teu jeito ternura, à raiz da árvore de todos os amantes’.

E ela, nua, acendeu velas azuis e espalhou orquídeas por memórias secretas das suas luzes, que se abraçaram e resvalaram, ofegaram e gemeram, se tocaram e se repeliram, se expandiram e se contraíram, se crisparam e se esvaíram. E ela sorriu-lhe, trémula como uma flor acabada de colher. E ele sorriu-lhe também. Como só ele sabe...
Ni*